terça-feira, 2 de dezembro de 2008

pesar


Em uma de minhas viagens fui parar num vilarejo do interior do país Imaginário, onde conheci Sra. Lee.

Uma senhora muito querida, simpática, porém reservada. Tinha muita dificuldade para se locomover. Olhei para seus pés e vi que, na minha frente, estava um remanescente exemplar chinês com "pé de lótus".
Já tinha ouvido falar daquilo, mas nunca tinha estado tão perto para ver como era.

Ela me convidou para sentar em sua varanda e perguntou se eu queria um chá.
Passei uma tarde inteira com ela e de lá eu não queria sair. Era muito gostosa a sua companhia. Tínhamos muitas coisas para conversar e bastante trocas culturais para fazer. Gostamos muito uma da outra.

O que me deixava triste era que, por causa de sua limitação motora, deixamos de fazer muitas coisas.

Ela disse que um de seus maiores sonhos era ter podido jogar bola e correr livre num campo, mas que seus pés de lótus vinham de uma tradição de seu país e o processo já começava desde muito pequenininha, sem que ela tivesse a oportunidade de optar. Era um processo muito doloroso.
Se acostumou porque não sabia como era ser diferente.

Estava chegando a hora de eu ir embora. Algo me deixava inquieta. Eu queria muito acompanhar a Sra. Lee por muito tempo ainda e queria tanto ter a oportunidade de vivenciar com ela a realização de seu sonho.

Comentei com ela que eu tinha ouvido falar de um médico que poderia reverter a sua situação, mas que seria uma difícil temporada. Ela precisaria de muita coragem e paciência, mas que com cirurgia, fisioterapia e uma boa dose de força de vontade, ela ainda poderia viver muitos anos caminhando normalmente e, quem sabe, até correndo.

A princípio ela se animou com a idéia. Pegou minha mão e resolveu que queria ir comigo.
Eu não tinha muito tempo, meu trem estava por partir e era necessário que fôssemos relativamente rápidas.
Ela se levantou.
Apoiada em mim, seu peso e sua dificuldade às vezes faziam com que eu me desequilibrasse e também tivesse dificuldade para andar com o cuidado de não deixá-la cair.
Na medida em que ficava muito tempo em pé e dava um... dois... três passos... ia doendo nela cada vez mais. Doía muito.

Essa dor fez com que ela pensasse em toda a sua vida, como ela passou todos esses anos e como ela sempre foi e chegou até ali. Assim ela sabia ser. Essa dor fez com que ela questionasse o fato de ter pés comuns e vir a transformar-se numa "idiota", pois possuir pés de lótus, na sua cultura, era prestigiado e raro. Essa dor lhe reconfortava por tudo dela saber e lhe deu medo do que não conhecia para além dela. Essa dor fez com que duvidasse de que poderia um dia andar normalmente. Queria ela mesmo andar normalmente? Essa dor fez com que ela não suportasse mais, largasse a minha mão e sentasse de novo.

Eu segui. Precisava pegar meu trem.

No caminho eu comecei a chorar. Queria muito continuar com Sra. Lee. Juro que é bom ter pés normais e poder andar!
...agora só posso lamentar e me conformar com o fato de que ela realmente não teria forças para andar muito. E eu não poderia carregá-la na garupa para o resto da vida.

Boa sorte, Sra. Lee! Realmente gostei muito de ter estado contigo!!

Um comentário:

Profe Karen disse...

Nossa!!!

Essa foi forte. E linda.